Marina Silva conversou com o Empate sobre o seu lugar na política, sobre formas de trazer a mudança para a realidade, sobre raízes. Pegamos uns pedacinhos e trouxemos para vocês. Com a palavra, Marina!
“Minha presença na política não é apenas de uma pessoa, é de uma conexão de várias raízes históricas, culturais, sociais. Vem de um olhar que não é do fazer-pelo-fazer ou ter-pelo-ter,é mais identificável com a necessidade de coerência entre o que se diz e o que se vive, que é a tradição das comunidades portadoras do legado do socioambientalismo no Brasil. É em nome desse legado, é pela continuação dele que me disponho a estar nesse lugar, em busca desse encontro com tanta gente.
Nem tanto pela alta densidade que se adquiriu nos termos de comunicação, de quantidade, de velocidade da informação, com 80% das pessoas vivendo nas cidades, é mais pela alta densidade do saber narrativo, que não se expressa pela quantidade, mas pela capacidade de assimilar e elaborar as coisas. Ou seja, eu prefiro não me ver com o olhar dessas improbabilidades a que as pessoas se referem, de uma pessoa que “passou pelo buraco da agulha”, mas como uma pessoa que foi capaz de ter uma visão mais integradora desses dois mundos.
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Minha idéia é de que a gente precisa e procura esse lugar de contribuição. As pessoas vão às ruas, umas com cartazes de saúde, outras de educação, de moradia, seja lá o que for. Parece que estão todos fragmentados, mas nunca houve tanta unidade nessa diversidade, porque cada uma dessas coisas expressa a busca de um mundo melhor. Como a verdade não está em nenhum de nós, mas entre nós, esse espaço “entre” está permeado pela ideia de um mundo melhor, mais justo, mais fraterno, um mundo em que além de direitos a gente tenha o dever de se importar uns com os outros, de cuidar um dos outros, de respeitar, de ensinar e aprender uns com os outros.
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Eu vejo duas formas da gente atuar para fazer as mudanças. Uma é quando você é pró-ativo ou propositivo, apresenta uma ideia a ser entendida e mediada por outros, para convencer e envolver as pessoas para implementar a ideia. Essa é a forma usual, mas acho que ela não funcionou muito, nos levou a um limite. Existe outra forma, que é usa aquilo que na psicanálise chamamos de “descontinuidade produtiva”. É uma espécie de disrupção que produz algo diferente. O “empate” é uma descontinuidade produtiva, porque não é apenas a interdição para a paralisia, é uma interdição que cria trânsito, movimento. Os movimentos que foram para as ruas recentemente, em grandes manifestações, também criaram uma descontinuidade produtiva, inclusive com resultados práticos: no recuo da PEC 37, no preço das passagens – que no começo os governos falavam com tanta arrogância que não tinha como rever. Criaram uma descontinuidade produtiva na ideia que os partidos tem o monopólio da política e pautam o que eles querem, do jeito que querem, quando querem. E esse movimento interdita isso, descontinua isso, e mesmo que agora estejam fazendo uma reforma politica sem nada a ver com as ruas, mas é porque foram obrigados a colocar na pauta a reforma politica que já haviam sepultado. Foram obrigados a tirar da pauta a diminuição dos poderes do ministério publico que eles já tinham colocado como algo certo. Então, esses “empates” tem essa característica de provocar uma descontinuação que não é paralisação, é movimento. Quando os “empates” surgiram no movimento dos seringueiros, eram para evitar uma derrubada, mas não evitavam apenas uma derrubada ali, naquelas arvores, acabavam evitando que se efetivasse um pensamento de substituir seringal por fazenda, substituir seringueiro por peão e substituir um estado de cultura florestal por um estado das cavalgadas. Ao tempo em que você descontinua um processo, coloca em cena outro movimento, de que é possível integrar desenvolvimento e preservação ambiental
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A constatação de que chegamos a um ponto de estagnação, de que não tem como continuar na mesma direção, levou alguns setores a uma idéia radical no sentido oposto, de parar toda e qualquer forma de desenvolvimento para “salvar o planeta”. Mas isso era incompatível com as necessidades dos vários países em desenvolvimento, que ainda vivem situações de extrema pobreza. Uma coisa é você parar nos Estados Unidos, Japão, Europa, ou seja, nos países desenvolvidos, e outra coisa é dizer isso para países asiáticos, africanos, da América Latina. É aí que surge a ideia do desenvolvimento sustentável. Inicialmente no âmbito das conferências da ONU, trabalhava-se com três dimensões: a sustentabilidade econômica, sustentabilidade social e sustentabilidade ambiental. No debate e no processo ao longo do tempo foi integrada também a ideia de sustentabilidade cultural, respeitando a diversidade cultural. Em cima desses pilares que já vinham sendo trabalhados, e vendo essa ideia da crise civilizatória, eu comecei a pensar que se a gente encarar apenas como estratégia de fazer melhor na economia, na relação da cultura com a natureza, isso seria insuficiente, porque, no meu entendimento, a base de tudo está nos valores. Então tenho procurado acrescentar a ideia de sustentabilidade ética, assim como de sustentabilidade politica e estética.
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Por que estética? Porque uma boa parte do que somos não é apenas material, mas vem do simbólico, do significado, do sentido, O que dialoga com isso é a sensibilidade estética, pela qual algumas coisas devem ser preservadas e respeitadas não apenas pelo valor econômico,mas pelo valor simbólico. Quando protegemos a paisagem, o patrimônio histórico, uma casa que poderia render milhões em um ponto estratégico de uma cidade, isso tem um valor cultural, social, simbólico, de tamanha envergadura que não tem dinheiro que pague. Porque dialoga com aquilo que nós somos, não apenas com o que nós temos. A ideia da sustentabilidade politica surge para contrapor-se a uma visão equivocada de que quem vai fazer as mudanças são os partidos, os políticos, o presidente da republica, o governador. Mas quem faz as mudanças são as pessoas, é a sociedade. O que esses agentes políticos são e fazem, querendo ou não, reflete o que nós somos, o ponto em que chegamos como sociedade. Se eles estão ali, estão empoderados por um conjunto de forças. Acreditar que a mudança vai acontecer porque colocamos ali aquela pessoa, que ela vai fazer a mudança “para” a sociedade em vez de fazer “com” a sociedade, é uma visão completamente ilusória e romântica das coisas. Isso é insustentável, do ponto de vista politico.
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As mudanças acontecem quando há sustentação da sociedade, é por isso que eu repito que as grandes manifestações que aconteceram deram o “termo de referência” para a ação política. As pessoas deram respaldo, dizendo: “priorizem o que é estratégico, o que faz a gente viver bem é saúde, educação, controle social”. Esse é termo de referencia: em vez de tratar como uma conjuntura, estar disposto a mexer na estrutura. Para isso não basta ter uma pauta de reivindicações, mas uma agenda estratégica para dar um novo curso à nação.
Enquanto a corrupção for um problema da Dilma, do Fernando Henrique, do Collor ou do Sarney, vai ter corrupção feia. O que vai fazer mudar é quando isso virar um problema da população, um problema nosso, que de fato nos incomode. A história tá cheia de exemplos de respostas que surgiram quando algo se tornou problema da sociedade. Se a escravidão fosse um problema dos senhores de engenho, teríamos escravidão ate hoje. Mas quando virou problema da sociedade, teve uma resposta política, houve um momento em que se impõe o fim da escravidão como ato politico. A mesma coisa com a inflação, que incomodou durante anos: não foi um grupo de iluminados, mas o desejo da sociedade que conseguiu uma solução. O mesmo a inclusão social: virou um tema da sociedade, ela deu sustentabilidade politica para que surgissem soluções efetivas.
Se os empates, que eram feitos em pequenas colocações na floresta por um punhado de pessoas, sofriam tanta violência e pressão do Estado, imagina o que seria desmontar 1500 empresas, desfazer 35 mil títulos de grilagem na Amazônia, colocar centenas de pessoas na cadeia, em poucos anos. Nós fizemos isso. Mas não foi o Lula ou a Marina, foi a sociedade que deu sustentabilidade para que isso acontecesse. Na época em que o Chico Mendes vivia, não havia sustentação politica ainda para isso acontecer. Quando eu saí do Ministério do Meio Ambiente, alguns pensaram que tudo ia parar, mas não havia sustentabilidade politica para revogar as medidas que nós havíamos tomado. Por isso eles foram minando sorrateiramente as bases, mudaram a estratégia para não enfrentar a pressão da sociedade.
A sustentabilidade ética está na base de tudo. Não no sentido moralista da palavra, mas daquilo que é constitutivo do ser humano. Somos humanos porque carecemos dos instintos e, assim, nos fazemos na relação com a natureza, com o outro e conosco mesmos a partir de um sistema de valores partilhado coletivamente. Mesmo os valores individuais se inserem nessa relação social. Boa parte dos problemas que temos, não são técnicos, mas éticos. Nós temos respostas técnicas para a maioria dos problemas que nós vivemos, o que nos falta são compromissos éticos. Não falta conhecimento para educar pessoas, mas ainda temos no Brasil cerca de 10 milhões de pessoas analfabetas. Somos grandes produtores, mas existem pessoas que passam fome. Temos tecnologia, mas nossa matriz energética não renovável e segura. Ou seja, é preciso que o conhecimento, a tecnologia e até os meios materiais e recursos econômicos estejam dirigidos por um compromisso ético de fazer essas mudanças. Então, na base da sustentabilidade politica, econômica, cultural, social, existe um sistema de valores que deve plasmar nossas decisões e nossas escolhas. É por isso que digo que a sustentabilidade não é uma maneira de fazer, mas uma maneira de ser, um ideal de vida.
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Quando me perguntam se sou de direita ou esquerda, digo que sou sustentabilista progressista, porque para mim isso é uma nova forma de pensar o mundo, uma nova categoria ideológica. Uma visão sustentabilista é capaz de integrar a questões econômica, cultural, social, politica, ética, estética, para criar novos ideais identificatórios e, a partir desses ideais, elaborar novos projetos identificatórios. Os ideais sustentam o que queremos ser; os projetos traduzem esses ideais na forma de propostas e metas, o que podemos fazer. O que se vislumbra, no mundo de hoje, são os ideais identificatórios da sustentabilidade. E o que está em disputa são os projetos que surgem do desdobramento desses ideais.
Ideais e projetos nascem na vida social, econômica, cultural, em todas as dimensões. A gente não vive só. Por isso, cada pessoa elabora seus projetos nas exigências de um tempo histórico, dos valores, da cultura, das condições que se colocam diante de nós para que possamos fazer as escolhas. É por isso que eu me sinto parte do saber narrativo das populações tradicionais, profundamente influenciada com tudo isso desde as relações iniciais que constituíram minha vida e nas quais venho elaborando os projetos que me identificam: na relação com meu pai seringueiro, das comunidades indígenas que me eram muito próximas devido ao meu tio xamã que foi morar entre os índios, na relação com minha avó, que, mesmo analfabeta, era uma pessoa muito sábia e muito culta, exigente, apaixonada pela literatura de cordel, católica praticante. Foi nessa mistura da tradição nordestina com a influência indígena, no meio da floresta, que comecei a caminhada que me trouxe até aqui e vai me levar adiante, aonde Deus e nossa capacidade de acreditar e criar aquilo em que acreditamos me levarem.”
Marina Silva
Foi seringueira, empregada doméstica, sindicalista, senadora, ministra do meio ambiente, candidata à presidenta da república. Mantenedora de utopias empenhada em democratizar a democracia.
