
No acender das luzes eu gostaria de registrar que esse é um jornal que nasceu, concepção e correria, em uma semana. Desde que voltei pro Acre tive várias vezes as mesmas conversas, com pessoas diferentes: no Acre não tem imprensa. Quase não se fala, e quando se diz alguma coisa, é bem baixinho. O mundo não cabe só nas versões oficiais. Falta espaço pra conversar. Pra produzir dissonâncias. Como ia ser bom quebrar a monotonia. E esse zine-manifesto-jornal é fruto dessas provocações, somos um bocadinho de gente movida pela convicção de que só existe o que se faz. Pra mudança que queremos ter a nossa cara, não tem caminho do meio: é preciso dar um jeito, meter a cara e trazer as idéias pra realidade.
O empate se desencadeia num bocado de datas simbólicas. São 25 anos da morte de Chico Mendes e 111 anos de Revolução Acreana. Inclusive, foi no dia 6 de Agosto de 2013, no Café do Theatro, ouvindo gerações da música autoral acreana que o Empate tomou rumo.
Resolvemos que o território livre tinha que servir pra gente imaginar esse outro mundo possível que queremos. Pra falar sobre democratizar a democracia. De sustentabilidade, poesia e subversão. O Brasil esteve em polvorosa, a rua se democratizou desde o junho de 2013, que foi de sangue e contestação. No Acre, 15 mil saíram às ruas e é tudo diferente, por trás do povo na rua não tem partido, sindicato, DCE. É gente comum ocupando o asfalto e querendo ser protagonista da política de seu país. Essa mudança toda abre uma avenida para que a gente mantenha a luta pela transformação da realidade, agora a partir das nossas próprias palavras e idéias. Construir um projeto que dialogue com a nossa gente do chão, com a indignação que nasce no ônibus apertado, que se ajeita na beira do barranco, que rebola pro salário dar no fim do mês.
Nosso projeto é coletivo, colaborativo e por causa disso mesmo é que a gente não pode deixar de agradecer quem acreditou no projeto desde que ele era ainda só o sonho e abriu as portas pra nós: Jorge Henrique e Janaína, do café do Theatro. Têm parte no crime também duas gerações da cena autoral acreana, Clenilson Batista e Diogo Soares. O Clenilson que se empolgou desde o primeiro convite, e o Diogo que participou desde o início, seja nas idéias, seja fazendo o som e os furdúncios que tanto colaboraram para o nosso processo criativo. Agradecemos à Adriana Ramos, que fez a primeira doação para a vaquinha. Por fim, agradecemos a todo mundo que se empolgou junto conosco com a idéia.
É o empate que retorna, desta vez como tecnologia social, como forma de gente simples afugentar motosserra, fazendeiro e jagunço. A resistência, a teimosia revolucionária que surge da insubordinação das pessoas é a marca das nossas insurreições populares à brasileira. E como insurreição, surge em muitas flores, floriu em Chico Mendes, em Maria do Espírito Santo, em Zé Castanha, em Amarildo, que já foram arrancados deste chão. Floriu na rabeca de Hélio Melo, floriu no menino do colégio acreano que foi se manifestar, floriu na menina que não vai mais abaixar a voz na hora de falar o que pensa. Floriu, resplandeceu, alumiô. Como uma poronga no caminho escuro do corte da seringa. Como a catarse, como um manifesto, como liberdade. Não era pra ser este o sentido da política?
Já diz uma placa na entrada do senadinho: quando o povo fala, ou é, ou foi, ou será. Agora falaremos. Durma-se com uma zuada dessa, salve a nossa voz!
Está aberta a tribuna. Neste café que mantém viva a cultura da cidade sob o chão que um dia segurou seu Hélio Melo e suas telas. E que seja fértil como terra preta.
*Texto publicado originalmente na primeira edição do Zine Empate. Iara Vicente brinca de fazer revolução desde criança. Acreana do pé rachado, mora na capital do Brasil, uma cidade sem esquinas. E vem de tempos em tempos beber do rio Acre pra renovar os sonhos e as utopias.
