Na década de 80, a cidade de Rio Branco explodiu, apesar de ser uma década mais curta já que ela encerrou em 1988, terminou com um tiro, mataram o Chico Mendes. E antecipou os anos 90 que foram anos muito ruins. Com exceção de quem morreu, as figuras culturais continuam vivas, e muitos deles permanecem na política ou na cena cultural. Interessante comparar as trajetórias, os momentos, e ver o que as pessoas diziam e faziam naquela época e o que dizem e fazem hoje. O que hoje é onipresente e pensa que é onipotente na conjuntura, que é o grupo dirigente do PT, não existia na década de 90. Existia um PT embrionário, com um viés ideológico bastante forte, com a concentração de grupos de esquerda chamada correntes internas, existiam quatro correntes e o Abrahim Farraht. Tinha a chamada libelu, no qual eu fui integrante no inicio, mas depois me tornei independente, sem deixar de ser radical. Existia o que foi depois a DS (Democracia Socialista) que foi o grupo do Genuíno, Tarso Genro, que aqui no estado era o pessoal do Chico Mendes, Marina Silva, Binho Marques e Carioca. Tinha a articulação, que era o pessoal da igreja católica, Nilson Mourão, Célia Pedrino e outras lideranças sindicais que eram ligadas a esse grupo e era o mais forte. Tinha um outro grupo de esquerda, não lembro se era tendência marxista ou lute pela base, mas não eram dos mais expressivos. E tinha o abrahim, porque uma área significativa do PT era quem movimentava o casarão. Era o bar onde se cantava, dançava, bebia cachaça, escrevia livro, fazia filho. Então era um PT de esquerda, não conseguia eleger um deputado, o que significa que a idéia de que o mundo começou a partir do governo do lula ou no caso do Acre no início do governo do Jorge Viana, não deixa de ter uma certa dose de verdade, porque o que tinha antigamente era um protomundo, um ensaio do mundo.
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Mas era uma coisa bastante diferente, entretanto naquela década de baixo de um domínio muito grande da pecuária, da exploração madeireira, na chegada em que se estabeleceu com força a televisão como centro da vida cultural, na década em que mataram impunemente diversos trabalhadores, em que a gente estava de baixo de peia nos produziu coisas muito significativas, nós criamos uma rede de organizações não governamentais com projetos fantásticos, criamos mais de 200 escolas da floresta entre de seringueiros e indígenas, criamos postos e projetos de saúde nos seringais e aldeias indígenas, criamos cooperativas, associações, a partir de 85 e principalmente já no final da década com a morte do Chico.
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Nós elaboramos naquele momento uma idéia que chamávamos de desenvolvimento auto-sustentável, que depois casou com a idéia do desenvolvimento sustentável da ONU. Não inventamos o termo, acho que eles também não inventaram, essas eram palavras que brotavam pelo mundo inteiro.
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O modelo de desenvolvimento que a gente propunha era em primeiro lugar de que nós mesmos produziríamos aqui as coisas que a gente precisa. E segundo, a gente achava que isso podia ser feito na floresta, com a floresta, aliás, isso só poderia ser feito se tivéssemos a floresta, ja que em uma área desmatada a gente não é auto sustentável, no máximo quem se sustenta é o boi, que ele come o capim, mas mesmo assim precisa botar vacina nele, precisa inseminar a vaca, fazer uma porção de coisas que provam que as atividades contrárias ao ambiente amazônico são insustentáveis e dependem muito de insumos que vem de fora. A gente achava que o modelo antigo do seringal precisava ser superado por um outro modelo que fosse também florestal, porque o seringal demonstrou que a gente pode viver pobremente, mas uma vida inteira, criar filhos e netos dentro da floresta, a vida indígena que existe aqui há vários séculos demonstra que uma população pode viver na floresta até mesmo isolada, sem depender de ninguém, então a floresta é uma base de sustentação.
Então todas essas idéias, de florestas extrativistas, as propostas de desenvolvimento surgiram nesse período, e surgiram na prática. A gente não simplesmente propunha “se eu ganhar a eleição eu vou fazer” , a gente nem tinha a esperança de ganhar a eleição então tínhamos que fazer na prática, se o estado apoiar. Ótimo, se não a gente acha a ajuda de uma ONG, faz um mutirão na comunidade, e faz a coisa na prática. Então fizemos muitas coisas. Através da luta política, nesse período de 80 e 90. Gente conseguiu colocar legalmente pelo menos metade do Acre na mão do povo, porque se não demarcou legalmente pelo menos ocupou na prática dois milhões de hectares de terras indígenas, outros dois milhões de reserva extrativistas e mais um milhão de hectares de área de projeto de assentamento, mais a parte da Serra do divisor, outras áreas de preservação. Somando tudo, metade do Acre estava em uma reforma agrária amazônica, terra para seringueiro, índio, populações extrativistas, ribeirinhos. Esse foi um avanço muito importante que a gente conquistou, depois que a gente entrou no governo não avançou nenhum palmo. Não temos novas áreas, novos assentamentos, não temos novas propostas, novas políticas ou educação. Apenas melhoramos o que existia e era já oficializado e depois essa melhora durou alguns anos e já está bastante pior.
Toinho Alves
Intelectual acreano que largou a poesia para virar marceneiro e fazer casa. Especialista em criar partidos e filhos, adora bagunçar as cabeças alheias com seus discursos e reflexões.