A missão de Cristo na Terra foi bem clara: trazer o Reino de Deus aos homens. Um Reino de equidade, justiça, amor e liberdade. Entretanto, passados alguns milênios de sua morte e ressurreição, alguns pontos essenciais de seu ensino foram relegados a segundo plano por alguns seguidores do Nazareno. Um grande exemplo é a nossa pátria amada: um dos maiores países cristãos do mundo é ao mesmo tempo um dos líderes na corrupção, desigualdade e concentração de renda. Contradições gritantes entre os ensinamentos bíblicos e a prática cotidiana do século XXI tem se tornado coisas normais, banais. Iniciei minha caminhada religiosa na Assembléia de Deus em 1999, com 12 anos e recebi muitas orientações: Ore,jejue, leia a bíblia e evangelize. Orei, jejuei e li a bíblia. Lendo a bíblia começou a nascer em mim um sentimento de indignação com tudo via acontecer em meu país, sendo que o Messias tinha vindo para trazer Esperança e Luz para os que viviam nas trevas. Nas trevas da fome, da doença, do descaso, do frio e da opressão dos poderosos. Então comecei a seguir a última e mais intensa orientação: evangelizar, que no sentido original da palavra significa “levar boas notícias.’ Qual a boa notícia para alguém que não tem emprego? Para quem tem fome e o filho doente? Para quem não tem condições mínimas de dignidade? Essas perguntas se tornaram cada vez mais frequentes em minha cabeça. Sempre que via um barraco despencando do morro com crianças famintas ou um ser humano embaixo da ponte sujo e largado, aumentava a intensidade dos questionamentos. Um cristianismo que se acomoda com a miséria pode ser tudo, menos cristianismo.
Após 7 anos de experiência nas ruas, passei a entender o cristianismo e as religiões no geral, como ferramentas importantíssimas para a transformação da sociedade e consequentemente, cumprir a oração do Pai Nosso: “Que venha a nós o teu Reino.” Não se trata de politizar a teologia. Se trata de cumprir o que Jesus afirmou ser um novo mandamento: “Amar os outros assim como ele nos amou.” Ou seja: Mais do que a nós mesmos. Essa missão foi dada a todos que dizem crer nEle: Transformar este mundo, com a arma que Ele nos deu: o Amor. Não podemos descansar enquanto crianças passarem fome ou dormirem na rua, sem escola e lar. Enquanto poucos se enriquecem e muitos morrem na miséria.
A Igreja se preocupou muito em ganhar almas, mas esqueceu-se das pessoas. Alma não come, não paga aluguel, não precisa pagar gás, água e luz. A oração do Pai Nosso é: “Venha nós o teu Reino e seja feita a tua vontade assim na Terra como no céu.” O Reino de Deus começa na Terra, aqui e agora. E a vontade dEle no céu é feita de maneira justa e soberana, portanto essa vontade precisa ser feita na Terra e nós somos os agentes responsáveis por isso, Ele já fez a parte que lhe cabia quando enviou Jesus e derramou o Espírito Santo. Milagres são maravilhosos e devem acontecer cada vez mais, mas a maior marca da igreja primitiva era o amor e a comunhão, o desapego ao dinheiro. Hoje nós vemos shows da fé e espetáculos santos mas não vemos a igreja amando o necessitado, se preocupando com o destino na nação… Pelo contrário, o que observa-se é a maioria dos líderes ostentando riqueza enquanto o povo sofre na miséria. Isso não é evangelho, Jesus não era assim. Não adianta milagre se não
houver amor, comunhão e partilha. Segundo a minha fé, no último dos dias muitos que fazem milagres e expulsam demônios vão chegar pra Jesus e ele dirá: “não vos conheço, apartai-vos de mim.”
Gustavo de Biase
Gustavo é capixaba e começou a se envolver com multidões dentro da igreja, como líder jovem evangélico. Descobriu a teologia da libertação e se meteu nas lutas por moradia, transporte público digno, contra empresas polidoras. Foi candidato a prefeito pelo PSOL e é militante da Rede Sustentabilidade.
