No inicio os calos doem. Mas, com o passar do tempo eles começam a fazer parte de nós. E vamos aos poucos acostumando com dor. Até que chega um ponto em que nem percebemos sua presença. Ele finalmente parece não incomodar. No inicio realmente me doiam aquelas discursões. Elas só me deixavam mal. Eu me sentia culpada por ser assim. Eu não escolhi. Eu sou. Todavia, minha mãe parecia negar isso. Ela não conseguia se desligar de todos os dogmas acumulados em sua trajetória. Cada vez que ela pronunciava que tinha vergonha de mim, aquilo ia me cortando. Quantas noites passei em claro, chorando e querendo acreditar que aquela tortura ia passar. Ela conseguia me humilhar todos os dias. Mas, com passar dos anos eu me acostumei, e até achava natural me sentir assim. Hoje eu sei que o que eu sofria era violência verbal. A violência verbal a antessala da violência física. E a linha que as separe é tênue.
Eu me lembro como se fosse hoje. Mas já se passaram 4 anos que eu assumi minha homossexualidade para a minha família. Foi no dia 11 de Dezembro de 2009. Naquela noite eu verbalizei o que por anos eu suprimi. Parecia apenas mais uma das discursões que eu tinha com a minha mãe. Porém, essa não foi. No meio da gritaria minha mãe perguntou: “você é “sapatão”?”. Nesse momento me veio um flash back de todos os anos que vivi uma vida dupla. Tentado ter sentimentos que não condiziam com a minha vontade. Então respirei fundo e falei: Eu sou. Naquele momento eu vi minha mãe transtornada, como jamais vi. Ela perguntou novamente e dessa vez eu gritei EU GOSTO DE MULHERES. Ela veio em minha direção e começou a me dar tapas, a jogar minha cabeça contra a parede ate que por fim, jogou um espelho em mim. Dessa noite, me restaram alguns hematomas. Os físicos nem foram tão dolorosos. O que mais me doeu foi às feridas abertas em mim e consequentemente na minha família.
As feridas se cicatrizam com o tempo. O processo de cicatrização pode ser demorado, mas um dia ele é concluído. As cicatrizes ficam. Mas, elas não doem. Perdoar é importante. Ajuda a seguir em frente. A vida é tão curta pra ver. E no fim, eu acredito que as pessoas sempre podem melhorar.
Mãe, eu te amo!
F.M
F.M. é mulher. É anônimo, podia ser qualquer um. Qualquer uma. A sigla é inventada pra falar de dor real.