Do quase nada

Imagem

foto: Iara Vicente

Do símbolo intenso da escuridão,
do desprezo, e ao mesmo tempo da resistência e da beleza,
faz-se a leitura quase subliminar do sensível desejo de paz.

Num corpo crú, sem marcas corais,
Vê-se a imagem de um ato supra de sensibilidade e fraternidade.

Num corpo crú, sem marcas forjadas,
Lê-se o símbolo indelével do movimento de todas as formas de amar.

Num corpo crú, sem marcas tangíveis,
Imagina-se o inimaginável tocar o infinito fluir quase astrológico do sentir-se vivo.

Num corpo crú, sem marcas astrais,
Flutua-se no desejo antropológico de ser o seu próprio Ser.

Num corpo crú, nú, só,
Constrói-se a poesia do ser puro, simples e solitário.

Do corpo crú, nú, só,
tira-se a verdade, a inocência e a liberdade de estar, apenas estar.

Dum corpo, dum copo, duma caneca, eu tiro a poesia.
Duma caixa, duma árvore, duma porta, eu tiro a poesia.
Duma vida, duma morte, duma sorte, eu vivo a poesia.

Teddy Falcão

Tem montado cineclubes, mostras, semeado arte e coletividade pela cidade toda. É cineclubista e ainda pensa em pilotar avião.

Não é assim que tem que ser

foto: Iara Vicente

O gigante acordou! Todos disseram. Mas será que ele acordou mesmo? Existe um ditado popular que diz: “Religião, futebol e política não se discutem”. Mas, será? Imagino que a política só vai melhorar quando quebrarmos esses paradigmas. É discutindo que vamos encontrar um caminho. Enquanto ficamos calados os movimentos estão sendo sufocados por práticas mesquinhas.
E aí você tem um diretório do central dos estudantes (DCE) dominado por certos grupos políticos que fazem do mesmo um trampolim para a carreira política. O DCE não é e nem tem que servir de trampolim. Mas, essa conduta vem de baixo. Começa nos grêmios estudantis, onde os partidos que tem interesse em aparelhar o movimento se infiltram e monopolizam tudo. E começa todo o jogo da política suja. Colocam seus “seguidores” para se familiarizarem politicamente com a jogatina. Com isso eu tenho um ciclo que detêm o poder, a força estudantil é sufocada e qualquer melhoria que não seja do interesse deles também . Se eu matei a fala dos estudantes no ensino médio ele começa a internalizar o silêncio. Quando o mesmo chega na universidade ele encontra um núcleo dominante que lhe faz manter a mesma linha de pensamento. Logo, eu não vou ter nenhum tipo de movimento opositor. Com isso tudo, fica bem e lindo para quem domina.
A universidade, que era pra ser um lugar de debate de ideias e uma tentativa de fazer uma nova política, se rende ao silêncio. Esse ciclo tem que mudar. Temos que dar voz ao movimento. Não ser só um eco do que os grandes querem ouvir. Vamos vandalizar isso. Agitar as universidades. Com ideias construtivas. Enquanto isso não acontecer nada vai mudar. E vamos continuar nessa calmaria. Que venha um furacão!
Somos os filhos da Revolução… Nós somos o futuro da Nação!

Kairlly Mourão
Vai ser médica em algum momento da vida, de gente ou de bichos. É acreana do pé rachado e não vê sentido num desenvolvimento para o Acre que não tenha como protagonista a nossa mata e a nossa gente.

Rabissaca // Como é bom pagar as próprias contas

Nem parece que faz mais de um mês que o Empate começou a circular como Zine impresso por Rio Branco. Pouco tempo que parece uma eternidade. Deu tempo de tudo. De ter gente parando no meio da rua perguntando se pode escrever pro zine, gente elogiando a iniciativa, teve gente criticando e até gente dizendo que o zine era comprado.

Na verdade, teve um monte de gente dizendo que o zine é comprado, só ainda não decidiram quem paga as contas. Alguns ficaram entre dizer que o zine era da oposição, outros da Marina Silva e já teve até gente espalhando por aí que o zine foi comprado pela Frente Popular do Acre. Mas na verdade ninguém veio perguntar para gente quem paga as contas. A resposta? Nós mesmos.

Nós achamos bem difícil a FPA ou a oposição pagar qualquer um que fale tanto sobre sustentabilidade e meio ambiente, porque nenhum deles estão realmente preocupados com isso. Quanto a Marina Silva? Bom, tem três ‘enredada’ na equipe, mas elas são voluntárias. Ate a última vez que checamos, voluntariado é exatamente quando a pessoa não recebe para trabalhar.

E mesmo que qualquer um deles quisessem pagar, a gente não ia aceitar por um simples motivo: não estamos a venda.

Mas falaram tanto que a gente tava querendo só promover a Marina Silva que a gente pensou… Mas não é que ela combina com o nosso projeto? A gente pode não receber dinheiro mas adora receber conselho. Então chamamos uma das pessoas que participou dos Empates, lá dos seringais, para falar sobre os empates que agora são virtuais. E ela topou!

E quanto quem vai pagar nossas contas? Bom, cada um já arrumou seu emprego ou sua pensão alimentícia para se virar. E as contas do zine é você, leitor, que paga. Toda vez que você faz uma doação ou compra um zine, você está ajudando a pagar as contas de impressão e divulgação.

Acho que tem tanto tempo que não tinha uma iniciativa independente na cidade que o pessoal esqueceu o que isso significa. É assim ó gente: somos cinco amigos com vontade de colocar as nossas idéias pra jogo. Fizemos vaquinha na internet, recebemos umas doações. Gastamos o nosso dinheiro, também. O design foi pensado pra ajudar nesse nosso jeito vira-lata de fazer imprensa, inclusive: o projeto é desde o início pensado para ser feito em folha A4, xerocado (e ficou lindo! Não ficou?). Mais simples e baratinho, não dá. Os dois reais que cobramos pelo zine rendem o suficiente pra gente colocar o próximo pra rodar.

Viu? Não tem mistério. Achamos importante escrever e desenhar arte, subversão, sustentabilidade. Nos unimos, viramos noites escrevendo, pintando, fazendo revisão. Grampeamos muito zine, quase botamos o designer doido, carregamos muito papel (reciclado!) debaixo do sol. Perdemos textos valiosos por cataclismas tecnológicos. Escrevemos em tudo, no meio de shows, em guardanapo, o texto capixaba inclusive foi escrito no celular. Abrimos mão de algumas coisas, ganhamos muitas outras. Essa catarse confusa, trabalhosa e maravilhosa que é juntar gente com o propósito de falar livremente.

A gente segue o ensinamento político do Chico Mendes: fazer o máximo usando o mínimo.
Se mais gente lembrasse como é simples fazer as coisas, sem ter que sempre recorrer a um barracão para contrair dívidas simbólicas, a gente não estaria nessa estagnação política doida no Acre.

Até lá nós vamos andando. Já diria o outro Chico, dessa vez o Science: um passo à frente e você não está mais no mesmo lugar!