Teresa Urban, presente!

foto: Iara Vicente

Teresa Urban foi uma grande jornalista curitibana pioneira na cobertura sobre meio ambiente e uma das primeiras mulheres a chefiar uma redação no estado do Paraná. Por onde passou inspirou militantes e ativistas com sua história de luta. Mesmo quando grávida, viajou para o interior do Paraná numa tentativa corajosa de introduzir os bóias-frias na esquerda e caiu nas mãos da repressão, onde sofreu torturas inimagináveis, tanto físicas como psicológicas, com o filho ainda recém-nascido. Defendia que qualquer revolução tinha de ser feita com a vanguarda dos trabalhadores organizados. Militou em movimentos contra a ditadura e foi exilada. Publicou mais de 20 livros relacionados à conservação da natureza, a luta trabalhadora, a repressão da ditadura e seu último, lançado dois meses atrás foi o primeiro de ficção, um desejo que foi realizado.

Frequentemente nos presenteava com esclarecedoras análises da conjuntura política nacional recheadas de denúncias. Na área ambiental, sua atuação deixou um legado imensurável para a sociedade paranaense e brasileira, mapeou os remanescentes da floresta de araucárias e desenvolveu diversos projetos ambientais na área de conservação da natureza com ongs e entidades. Sua militância e ativismo socioambiental foram marcados por vitórias e também amargas derrotas, como exemplo podemos citar a não instalação de uma termoelétrica no litoral paranaense e o fechamento da Estrada do Colono no Parque Nacional do Iguaçu. Com muita energia orientou e alertou a população quanto aos retrocessos socioambientais do atual governo e foi liderança na campanha Veta Dilma contra a Reforma do Código Florestal, mudança que questionou até seu último momento.

Seus posicionamentos eram claros quanto à importância dos serviços e leis ambientais, defendia que a responsabilidade socioambiental deveria ser vista como um compromisso entre gerações e mais que isso, como um pacto civilizatório. Costumava questionar “a natureza nos protege, mas quem protege a natureza?” e assim viveu para protegê-la.

Grande guerreira, mãe, avó e mulher livre, seus ensinamentos estão e estarão presentes nos gritos de cada jovem que hoje se levanta por ideais coletivos e um país mais justo. Teresa era como uma araucária, árvore símbolo do Paraná, que não deixa apenas uma semente, mas sim uma pinha cheia delas. Nós hoje somos seus pinhões e vamos continuar com sua luta por liberdade, por uma vida mais digna, contra agressões ao meio ambiente ou aos direitos humanos. Em cada marcha e em cada manifestação pela vida ela estará presente, pois Teresa Urban vive em nós!

Teresa Urban, presente!

texto lido por Letícia Camargo na Marcha das Vadias de Curitiba, em 2013.

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A Letícia faz parte do coletivo que organiza a marcha das vadias no Paraná. Pra quem não sabe, a marcha das vadias é um protesto anual pela liberdade das mulheres. O nome é uma resposta à provocação ouvida por uma vítima de estupro no Canadá. Ao tentar prestar queixa na delegacia, ela ouviu do policial que a culpa era dela, por estar “vestida como uma vadia”. Então ano a ano, mulheres do mundo todo marcham para dizer: se ser livre é ser vadia, então somos todas vadias. E, ao mesmo tempo, ninguém é.

Teresa Urban faleceu um mês antes da Marcha das Vadias de Curitiba. Foi um baque muito grande para os movimentos sociais, já que ela era uma grande referência. Letícia propôs fazer na marcha um momento para celebrar Teresa, sua vida, suas lutas. Uma faixa enorme com o rosto dela foi pendurada no carro de som, fazendo de Teresa, mesmo ausente, mais uma mulher na linha de frente do protesto. Letícia escreveu este texto que publicamos aqui em homenagem a ela e foi combinado com o coletivo a leitura dele durante a marcha.
No dia da marcha, Letícia leu o texto. Estavam elas quase no Boca Maldita onde termina a marcha. Letícia diz que o Boca Maldita é “um reduto machista de Curitiba”. Tem este apelido por ser onde homens se juntam para falar de política e de futebol desde a década de 60. Fica no final da rua XV de Novembro, bem no centro da cidade.
Ela subiu no carro de som e anunciou que leria um texto sobre Teresa, grande paranaense, que havia falecido. Disse que ela deixou milhares de órfãos e ófãs em Curitiba e em todo o Brasil, que o legado de Teresa é e seguirá sendo aprendizado para muitas mulheres livres do Brasil.
Letícia leu o texto e todos levantaram cartazes, muitos escritos: Tereza Urban vive! A multidão repetia o seu nome em coro várias vezes, era de arrepiar de tão lindo. Ali, naquele mesmo lugar da rua XV onde Teresa participou ela mesma de inúmeras manifestações. Incluindo uma na década de 80 onde ela e vários ativistas socioambientais da velha guarda paranaense colocaram milhares de quilos de carvão em protesto contra a implantação de uma termoelétrica. Era pra ter carvão queimando no litoral do Paraná, mas graças à luta de Teresa e de tantos outros a termoelétrica nunca foi construídas. Letícia me contou isso pelo facebook, e se emocionou. Eu, do outro lado do país, me emocionei também.

“Aos nossos mortos, nenhum minuto de silêncio, mas uma vida inteira de lutas!”

Iara Vicente

Acreana do pé rachado, vem de tempos em tempos beber do rio Acre pra renovar os sonhos e as utopias

Letícia Camargo 

Feminista, socioambientalista, sustentabilista. Aprendeu a indignação com uma geração de mulheres fortes. É uma araucária em formação, espalhando pinha das boas idéias por aí.