“A tua presença” / Trechos de uma conversa com Marina Silva

Marina Silva conversou com o Empate  sobre o seu lugar na política, sobre formas de trazer a mudança para a realidade, sobre raízes. Pegamos uns pedacinhos e trouxemos para vocês. Com a palavra, Marina!

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foto: Iara Vicente

          

“Minha presença na política não é apenas de uma pessoa, é de uma conexão de várias raízes históricas, culturais, sociais. Vem de um olhar que não é do fazer-pelo-fazer ou ter-pelo-ter,é mais identificável com a necessidade de coerência entre o que se diz e o que se vive, que é a tradição das comunidades portadoras do legado do socioambientalismo no Brasil. É em nome desse legado, é pela continuação dele que me disponho a estar nesse lugar, em busca desse encontro com tanta gente.

 

Nem tanto pela alta densidade que se adquiriu nos termos de comunicação, de quantidade, de velocidade da informação, com 80% das pessoas vivendo nas cidades, é mais pela alta densidade do saber narrativo, que não se expressa pela quantidade, mas pela capacidade de assimilar e elaborar as coisas. Ou seja, eu prefiro não me ver com o olhar dessas improbabilidades a que as pessoas se referem, de uma pessoa que “passou pelo buraco da agulha”, mas como uma pessoa que foi capaz de ter uma visão mais integradora desses dois mundos.

 

(…)

 

Minha idéia é de que a gente precisa e procura esse lugar de contribuição. As pessoas vão às ruas, umas com cartazes de saúde, outras de educação, de moradia, seja lá o que for. Parece que estão todos fragmentados, mas nunca houve tanta unidade nessa diversidade, porque cada uma dessas coisas expressa a busca de um mundo melhor. Como a verdade não está em nenhum de nós, mas entre nós, esse espaço “entre” está permeado pela ideia de um mundo melhor, mais justo, mais fraterno, um mundo em que além de direitos a gente tenha o dever de se importar uns com os outros, de cuidar um dos outros, de respeitar, de ensinar e aprender uns com os outros.

 

(…)

 

Eu vejo duas formas da gente atuar para fazer as mudanças. Uma é quando você é pró-ativo ou propositivo, apresenta uma ideia a ser entendida e mediada por outros, para convencer e envolver as pessoas para implementar a ideia. Essa é a forma usual, mas acho que ela não funcionou muito, nos levou a um limite. Existe outra forma, que é usa aquilo que na psicanálise chamamos de “descontinuidade produtiva”. É uma espécie de disrupção que produz algo diferente. O “empate” é uma descontinuidade produtiva, porque não é apenas a interdição para a paralisia, é uma interdição que cria trânsito, movimento. Os movimentos que foram para as ruas recentemente, em grandes manifestações, também criaram uma descontinuidade produtiva, inclusive com resultados práticos: no recuo da PEC 37, no preço das passagens – que no começo os governos falavam com tanta arrogância que não tinha como rever. Criaram uma descontinuidade produtiva na ideia que os partidos tem o monopólio da política e pautam o que eles querem, do jeito que querem, quando querem. E esse movimento interdita isso, descontinua isso, e mesmo que agora estejam fazendo uma reforma politica sem nada a ver com as ruas, mas é porque foram obrigados a colocar na pauta a reforma politica que já haviam sepultado. Foram obrigados a tirar da pauta a diminuição dos poderes do ministério publico que eles já tinham colocado como algo certo. Então, esses “empates” tem essa característica de provocar uma descontinuação que não é paralisação, é movimento. Quando os “empates” surgiram no movimento dos seringueiros, eram para evitar uma derrubada, mas não evitavam apenas uma derrubada ali, naquelas arvores, acabavam evitando que se efetivasse um pensamento de substituir seringal por fazenda, substituir seringueiro por peão e substituir um estado de cultura florestal por um estado das cavalgadas. Ao tempo em que você descontinua um processo, coloca em cena outro movimento, de que é possível integrar desenvolvimento e preservação ambiental

 

(…)

 

A constatação de que chegamos a um ponto de estagnação, de que não tem como continuar na mesma direção, levou alguns setores a uma idéia radical no sentido oposto, de parar toda e qualquer forma de desenvolvimento para “salvar o planeta”. Mas isso era incompatível com as necessidades dos vários países em desenvolvimento, que ainda vivem situações de extrema pobreza. Uma coisa é você parar nos Estados Unidos, Japão, Europa, ou seja, nos países desenvolvidos, e outra coisa é dizer isso para países asiáticos, africanos, da América Latina. É aí que surge a ideia do desenvolvimento sustentável. Inicialmente no âmbito das conferências da ONU, trabalhava-se com três dimensões: a sustentabilidade econômica, sustentabilidade social e sustentabilidade ambiental. No debate e no processo ao longo do tempo foi integrada também a ideia de sustentabilidade cultural, respeitando a diversidade cultural. Em cima desses pilares que já vinham sendo trabalhados, e vendo essa ideia da crise civilizatória, eu comecei a pensar que se a gente encarar apenas como estratégia de fazer melhor na economia, na relação da cultura com a natureza, isso seria insuficiente, porque, no meu entendimento, a base de tudo está nos valores. Então tenho procurado acrescentar a ideia de sustentabilidade ética, assim como de sustentabilidade politica e estética.

 

(…)

 

Por que estética? Porque uma boa parte do que somos não é apenas material, mas vem do simbólico, do significado, do sentido, O que dialoga com isso é a sensibilidade estética, pela qual algumas coisas devem ser preservadas e respeitadas não apenas pelo valor econômico,mas pelo valor simbólico. Quando protegemos a paisagem, o patrimônio histórico, uma casa que poderia render milhões em um ponto estratégico de uma cidade, isso tem um valor cultural, social, simbólico, de tamanha envergadura que não tem dinheiro que pague. Porque dialoga com aquilo que nós somos, não apenas com o que nós temos. A ideia da sustentabilidade politica surge para contrapor-se a uma visão equivocada de que quem vai fazer as mudanças são os partidos, os políticos, o presidente da republica, o governador. Mas quem faz as mudanças são as pessoas, é a sociedade. O que esses agentes políticos são e fazem, querendo ou não, reflete o que nós somos, o ponto em que chegamos como sociedade. Se eles estão ali, estão empoderados por um conjunto de forças. Acreditar que a mudança vai acontecer porque colocamos ali aquela pessoa, que ela vai fazer a mudança “para” a sociedade em vez de fazer “com” a sociedade, é uma visão completamente ilusória e romântica das coisas. Isso é insustentável, do ponto de vista politico.

 

(…)

 

As mudanças acontecem quando há sustentação da sociedade, é por isso que eu repito que as grandes manifestações que aconteceram deram o “termo de referência” para a ação política. As pessoas deram respaldo, dizendo: “priorizem o que é estratégico, o que faz a gente viver bem é saúde, educação, controle social”. Esse é termo de referencia: em vez de tratar como uma conjuntura, estar disposto a mexer na estrutura. Para isso não basta ter uma pauta de reivindicações, mas uma agenda estratégica para dar um novo curso à nação.

 

Enquanto a corrupção for um problema da Dilma, do Fernando Henrique, do Collor ou do Sarney, vai ter corrupção feia. O que vai fazer mudar é quando isso virar um problema da população, um problema nosso, que de fato nos incomode. A história tá cheia de exemplos de respostas que surgiram quando algo se tornou problema da sociedade. Se a escravidão fosse um problema dos senhores de engenho, teríamos escravidão ate hoje. Mas quando virou problema da sociedade, teve uma resposta política, houve um momento em que se impõe o fim da escravidão como ato politico. A mesma coisa com a inflação, que incomodou durante anos: não foi um grupo de iluminados, mas o desejo da sociedade que conseguiu uma solução. O mesmo a inclusão social: virou um tema da sociedade, ela deu sustentabilidade politica para que surgissem soluções efetivas.

 

Se os empates, que eram feitos em pequenas colocações na floresta por um punhado de pessoas, sofriam tanta violência e pressão do Estado, imagina o que seria desmontar 1500 empresas, desfazer 35 mil títulos de grilagem na Amazônia, colocar centenas de pessoas na cadeia, em poucos anos. Nós fizemos isso. Mas não foi o Lula ou a Marina, foi a sociedade que deu sustentabilidade para que isso acontecesse. Na época em que o Chico Mendes vivia, não havia sustentação politica ainda para isso acontecer. Quando eu saí do Ministério do Meio Ambiente, alguns pensaram que tudo ia parar, mas não havia sustentabilidade politica para revogar as medidas que nós havíamos tomado. Por isso eles foram minando sorrateiramente as bases, mudaram a estratégia para não enfrentar a pressão da sociedade.

 

A sustentabilidade ética está na base de tudo. Não no sentido moralista da palavra, mas daquilo que é constitutivo do ser humano. Somos humanos porque carecemos dos instintos e, assim, nos fazemos na relação com a natureza, com o outro e conosco mesmos a partir de um sistema de valores partilhado coletivamente. Mesmo os valores individuais se inserem nessa relação social. Boa parte dos problemas que temos, não são técnicos, mas éticos. Nós temos respostas técnicas para a maioria dos problemas que nós vivemos, o que nos falta são compromissos éticos. Não falta conhecimento para educar pessoas, mas ainda temos no Brasil cerca de 10 milhões de pessoas analfabetas. Somos grandes produtores, mas existem pessoas que passam fome. Temos tecnologia, mas nossa matriz energética não renovável e segura. Ou seja, é preciso que o conhecimento, a tecnologia e até os meios materiais e recursos econômicos estejam dirigidos por um compromisso ético de fazer essas mudanças. Então, na base da sustentabilidade politica, econômica, cultural, social, existe um sistema de valores que deve plasmar nossas decisões e nossas escolhas. É por isso que digo que a sustentabilidade não é uma maneira de fazer, mas uma maneira de ser, um ideal de vida.

 

(…)

 

Quando me perguntam se sou de direita ou esquerda, digo que sou sustentabilista progressista, porque para mim isso é uma nova forma de pensar o mundo, uma nova categoria ideológica. Uma visão sustentabilista é capaz de integrar a questões econômica, cultural, social, politica, ética, estética, para criar novos ideais identificatórios e, a partir desses ideais, elaborar novos projetos identificatórios. Os ideais sustentam o que queremos ser; os projetos traduzem esses ideais na forma de propostas e metas, o que podemos fazer. O que se vislumbra, no mundo de hoje, são os ideais identificatórios da sustentabilidade. E o que está em disputa são os projetos que surgem do desdobramento desses ideais.

 

Ideais e projetos nascem na vida social, econômica, cultural, em todas as dimensões. A gente não vive só. Por isso, cada pessoa elabora seus projetos nas exigências de um tempo histórico, dos valores, da cultura, das condições que se colocam diante de nós para que possamos fazer as escolhas. É por isso que eu me sinto parte do saber narrativo das populações tradicionais, profundamente influenciada com tudo isso desde as relações iniciais que constituíram minha vida e nas quais venho elaborando os projetos que me identificam: na relação com meu pai seringueiro, das comunidades indígenas que me eram muito próximas devido ao meu tio xamã que foi morar entre os índios, na relação com minha avó, que, mesmo analfabeta, era uma pessoa muito sábia e muito culta, exigente, apaixonada pela literatura de cordel, católica praticante. Foi nessa mistura da tradição nordestina com a influência indígena, no meio da floresta, que comecei a caminhada que me trouxe até aqui e vai me levar adiante, aonde Deus e nossa capacidade de acreditar e criar aquilo em que acreditamos me levarem.”

 

 

Marina Silva
Foi seringueira, empregada doméstica, sindicalista, senadora, ministra do meio ambiente, candidata à presidenta da república. Mantenedora de utopias empenhada em democratizar a democracia.

Voltar para Brasília é um murro no estômago

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foto: Joyce Matias

Acho que todo acreano tem isso, se mora fora do Acre. Melhor, fora do Norte. Ainda mais nestas metrópoles de solidão afetada como Brasília. A gente volta e enjilha, sente falta do calor, das pessoas “de verdade”. Feito uva passa. Saudade do nosso barulho constante, do fuá, do trânsito imprevisível, das carapanãs. De bater perna no centro, de passar mal de calor.

Tem um pouco de bairrismo mas o grosso é pertencimento mesmo. A florestania, como mote ideológico, só emplacou porquê a identidade tácita, do não dito, do viver na floresta e da marca disso em nossos corpos, mentes, corações. As singularidades do nosso sotaque, dos nossos arranjos de palavras, do jeito que é tão nosso de criar laços e de nos cercar de gente. Até as brigas tem uma pimenta de cheiro diferente. Eu tô achando esse texto muito é brega. Vou pra minha casa.

Mentira, vou não. Qualquer barulho de gente é melhor do que barulho nenhum. Correndo os olhos na rua reta e sem esquinas (como que alguém consegue uma proeza dessas? Fazer uma cidade inteira sem nem mesmo uma quina?) vejo o sonho dos outros, uma loja de discos fechada, umas janelas pontilhadas de luz. Me sussurra um Belchior: a solidão das pessoas nessas capitais.

Essas epifanias doidas que a internet nos provoca quebram o sentimento de exílio um pouco. Longe, agoniada, com um aperto no peito é impossível não ficar. Mas tem a ventura de poder semear o vento a distância. Escrever para um zine da gente, feito na tora e comungado a cinco pares de mãos, triangulando Acre, Brasília, Pelotas. Acompanhar o movimento que começa a reocupar a cidade com arte, mobilizar de longe, com mais do que esperanças e figas de boa sorte. Outra coisa boa: nem precisa mais de líder dos povos, é da sintonia possível em amontoados de gente que vão nascendo os caminhos. É de um monte de pouquinhos que se forma a imensidão. Essa avenida de possibilidades combate o desassossego que é sair da terra que a gente ama. Provoca outro, o desassossego criativo de continuar fechada com os seus, inventando caminhos para o sonho mesmo no outro extremo do Brasil.

Casar arte com política não é conveniência, é libertação. Não tem desprendimento maior do que transformar sonho em coisa, mistificação em estratégia, vontade em lembrança. É o que aprendi durante todo o tempo de militante nas boas causas, de articuladora política. É o que eu desejo que o povo de Rio Branco redescubra também. Estamos vivendo um momento lindo, arte e idéias nascendo nos cantinhos da cidade, a cidade voltando a pronunciar o que pensa, o que sente falta. Se apoderem disso, gente. Descubram a liberdade que é dar a sua cara pra mudança que você quer pro mundo. É do caralho, juro pra vocês.

Vou pagar o café e andar em ziguezague nessa cidade de paralelas. O cerrado debaixo dos pés e os ipês do Acre de Agosto na cabeça. Também o versinho do poeta, esperando ainda / que a festa do adeus / seja a festa da vinda.

Iara Vicente

Acreana do pé rachado, vem de tempos em tempos beber do rio Acre pra renovar os sonhos e as utopias

Teresa Urban, presente!

foto: Iara Vicente

Teresa Urban foi uma grande jornalista curitibana pioneira na cobertura sobre meio ambiente e uma das primeiras mulheres a chefiar uma redação no estado do Paraná. Por onde passou inspirou militantes e ativistas com sua história de luta. Mesmo quando grávida, viajou para o interior do Paraná numa tentativa corajosa de introduzir os bóias-frias na esquerda e caiu nas mãos da repressão, onde sofreu torturas inimagináveis, tanto físicas como psicológicas, com o filho ainda recém-nascido. Defendia que qualquer revolução tinha de ser feita com a vanguarda dos trabalhadores organizados. Militou em movimentos contra a ditadura e foi exilada. Publicou mais de 20 livros relacionados à conservação da natureza, a luta trabalhadora, a repressão da ditadura e seu último, lançado dois meses atrás foi o primeiro de ficção, um desejo que foi realizado.

Frequentemente nos presenteava com esclarecedoras análises da conjuntura política nacional recheadas de denúncias. Na área ambiental, sua atuação deixou um legado imensurável para a sociedade paranaense e brasileira, mapeou os remanescentes da floresta de araucárias e desenvolveu diversos projetos ambientais na área de conservação da natureza com ongs e entidades. Sua militância e ativismo socioambiental foram marcados por vitórias e também amargas derrotas, como exemplo podemos citar a não instalação de uma termoelétrica no litoral paranaense e o fechamento da Estrada do Colono no Parque Nacional do Iguaçu. Com muita energia orientou e alertou a população quanto aos retrocessos socioambientais do atual governo e foi liderança na campanha Veta Dilma contra a Reforma do Código Florestal, mudança que questionou até seu último momento.

Seus posicionamentos eram claros quanto à importância dos serviços e leis ambientais, defendia que a responsabilidade socioambiental deveria ser vista como um compromisso entre gerações e mais que isso, como um pacto civilizatório. Costumava questionar “a natureza nos protege, mas quem protege a natureza?” e assim viveu para protegê-la.

Grande guerreira, mãe, avó e mulher livre, seus ensinamentos estão e estarão presentes nos gritos de cada jovem que hoje se levanta por ideais coletivos e um país mais justo. Teresa era como uma araucária, árvore símbolo do Paraná, que não deixa apenas uma semente, mas sim uma pinha cheia delas. Nós hoje somos seus pinhões e vamos continuar com sua luta por liberdade, por uma vida mais digna, contra agressões ao meio ambiente ou aos direitos humanos. Em cada marcha e em cada manifestação pela vida ela estará presente, pois Teresa Urban vive em nós!

Teresa Urban, presente!

texto lido por Letícia Camargo na Marcha das Vadias de Curitiba, em 2013.

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A Letícia faz parte do coletivo que organiza a marcha das vadias no Paraná. Pra quem não sabe, a marcha das vadias é um protesto anual pela liberdade das mulheres. O nome é uma resposta à provocação ouvida por uma vítima de estupro no Canadá. Ao tentar prestar queixa na delegacia, ela ouviu do policial que a culpa era dela, por estar “vestida como uma vadia”. Então ano a ano, mulheres do mundo todo marcham para dizer: se ser livre é ser vadia, então somos todas vadias. E, ao mesmo tempo, ninguém é.

Teresa Urban faleceu um mês antes da Marcha das Vadias de Curitiba. Foi um baque muito grande para os movimentos sociais, já que ela era uma grande referência. Letícia propôs fazer na marcha um momento para celebrar Teresa, sua vida, suas lutas. Uma faixa enorme com o rosto dela foi pendurada no carro de som, fazendo de Teresa, mesmo ausente, mais uma mulher na linha de frente do protesto. Letícia escreveu este texto que publicamos aqui em homenagem a ela e foi combinado com o coletivo a leitura dele durante a marcha.
No dia da marcha, Letícia leu o texto. Estavam elas quase no Boca Maldita onde termina a marcha. Letícia diz que o Boca Maldita é “um reduto machista de Curitiba”. Tem este apelido por ser onde homens se juntam para falar de política e de futebol desde a década de 60. Fica no final da rua XV de Novembro, bem no centro da cidade.
Ela subiu no carro de som e anunciou que leria um texto sobre Teresa, grande paranaense, que havia falecido. Disse que ela deixou milhares de órfãos e ófãs em Curitiba e em todo o Brasil, que o legado de Teresa é e seguirá sendo aprendizado para muitas mulheres livres do Brasil.
Letícia leu o texto e todos levantaram cartazes, muitos escritos: Tereza Urban vive! A multidão repetia o seu nome em coro várias vezes, era de arrepiar de tão lindo. Ali, naquele mesmo lugar da rua XV onde Teresa participou ela mesma de inúmeras manifestações. Incluindo uma na década de 80 onde ela e vários ativistas socioambientais da velha guarda paranaense colocaram milhares de quilos de carvão em protesto contra a implantação de uma termoelétrica. Era pra ter carvão queimando no litoral do Paraná, mas graças à luta de Teresa e de tantos outros a termoelétrica nunca foi construídas. Letícia me contou isso pelo facebook, e se emocionou. Eu, do outro lado do país, me emocionei também.

“Aos nossos mortos, nenhum minuto de silêncio, mas uma vida inteira de lutas!”

Iara Vicente

Acreana do pé rachado, vem de tempos em tempos beber do rio Acre pra renovar os sonhos e as utopias

Letícia Camargo 

Feminista, socioambientalista, sustentabilista. Aprendeu a indignação com uma geração de mulheres fortes. É uma araucária em formação, espalhando pinha das boas idéias por aí.

Do quase nada

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foto: Iara Vicente

Do símbolo intenso da escuridão,
do desprezo, e ao mesmo tempo da resistência e da beleza,
faz-se a leitura quase subliminar do sensível desejo de paz.

Num corpo crú, sem marcas corais,
Vê-se a imagem de um ato supra de sensibilidade e fraternidade.

Num corpo crú, sem marcas forjadas,
Lê-se o símbolo indelével do movimento de todas as formas de amar.

Num corpo crú, sem marcas tangíveis,
Imagina-se o inimaginável tocar o infinito fluir quase astrológico do sentir-se vivo.

Num corpo crú, sem marcas astrais,
Flutua-se no desejo antropológico de ser o seu próprio Ser.

Num corpo crú, nú, só,
Constrói-se a poesia do ser puro, simples e solitário.

Do corpo crú, nú, só,
tira-se a verdade, a inocência e a liberdade de estar, apenas estar.

Dum corpo, dum copo, duma caneca, eu tiro a poesia.
Duma caixa, duma árvore, duma porta, eu tiro a poesia.
Duma vida, duma morte, duma sorte, eu vivo a poesia.

Teddy Falcão

Tem montado cineclubes, mostras, semeado arte e coletividade pela cidade toda. É cineclubista e ainda pensa em pilotar avião.

Não é assim que tem que ser

foto: Iara Vicente

O gigante acordou! Todos disseram. Mas será que ele acordou mesmo? Existe um ditado popular que diz: “Religião, futebol e política não se discutem”. Mas, será? Imagino que a política só vai melhorar quando quebrarmos esses paradigmas. É discutindo que vamos encontrar um caminho. Enquanto ficamos calados os movimentos estão sendo sufocados por práticas mesquinhas.
E aí você tem um diretório do central dos estudantes (DCE) dominado por certos grupos políticos que fazem do mesmo um trampolim para a carreira política. O DCE não é e nem tem que servir de trampolim. Mas, essa conduta vem de baixo. Começa nos grêmios estudantis, onde os partidos que tem interesse em aparelhar o movimento se infiltram e monopolizam tudo. E começa todo o jogo da política suja. Colocam seus “seguidores” para se familiarizarem politicamente com a jogatina. Com isso eu tenho um ciclo que detêm o poder, a força estudantil é sufocada e qualquer melhoria que não seja do interesse deles também . Se eu matei a fala dos estudantes no ensino médio ele começa a internalizar o silêncio. Quando o mesmo chega na universidade ele encontra um núcleo dominante que lhe faz manter a mesma linha de pensamento. Logo, eu não vou ter nenhum tipo de movimento opositor. Com isso tudo, fica bem e lindo para quem domina.
A universidade, que era pra ser um lugar de debate de ideias e uma tentativa de fazer uma nova política, se rende ao silêncio. Esse ciclo tem que mudar. Temos que dar voz ao movimento. Não ser só um eco do que os grandes querem ouvir. Vamos vandalizar isso. Agitar as universidades. Com ideias construtivas. Enquanto isso não acontecer nada vai mudar. E vamos continuar nessa calmaria. Que venha um furacão!
Somos os filhos da Revolução… Nós somos o futuro da Nação!

Kairlly Mourão
Vai ser médica em algum momento da vida, de gente ou de bichos. É acreana do pé rachado e não vê sentido num desenvolvimento para o Acre que não tenha como protagonista a nossa mata e a nossa gente.

Rabissaca // Como é bom pagar as próprias contas

Nem parece que faz mais de um mês que o Empate começou a circular como Zine impresso por Rio Branco. Pouco tempo que parece uma eternidade. Deu tempo de tudo. De ter gente parando no meio da rua perguntando se pode escrever pro zine, gente elogiando a iniciativa, teve gente criticando e até gente dizendo que o zine era comprado.

Na verdade, teve um monte de gente dizendo que o zine é comprado, só ainda não decidiram quem paga as contas. Alguns ficaram entre dizer que o zine era da oposição, outros da Marina Silva e já teve até gente espalhando por aí que o zine foi comprado pela Frente Popular do Acre. Mas na verdade ninguém veio perguntar para gente quem paga as contas. A resposta? Nós mesmos.

Nós achamos bem difícil a FPA ou a oposição pagar qualquer um que fale tanto sobre sustentabilidade e meio ambiente, porque nenhum deles estão realmente preocupados com isso. Quanto a Marina Silva? Bom, tem três ‘enredada’ na equipe, mas elas são voluntárias. Ate a última vez que checamos, voluntariado é exatamente quando a pessoa não recebe para trabalhar.

E mesmo que qualquer um deles quisessem pagar, a gente não ia aceitar por um simples motivo: não estamos a venda.

Mas falaram tanto que a gente tava querendo só promover a Marina Silva que a gente pensou… Mas não é que ela combina com o nosso projeto? A gente pode não receber dinheiro mas adora receber conselho. Então chamamos uma das pessoas que participou dos Empates, lá dos seringais, para falar sobre os empates que agora são virtuais. E ela topou!

E quanto quem vai pagar nossas contas? Bom, cada um já arrumou seu emprego ou sua pensão alimentícia para se virar. E as contas do zine é você, leitor, que paga. Toda vez que você faz uma doação ou compra um zine, você está ajudando a pagar as contas de impressão e divulgação.

Acho que tem tanto tempo que não tinha uma iniciativa independente na cidade que o pessoal esqueceu o que isso significa. É assim ó gente: somos cinco amigos com vontade de colocar as nossas idéias pra jogo. Fizemos vaquinha na internet, recebemos umas doações. Gastamos o nosso dinheiro, também. O design foi pensado pra ajudar nesse nosso jeito vira-lata de fazer imprensa, inclusive: o projeto é desde o início pensado para ser feito em folha A4, xerocado (e ficou lindo! Não ficou?). Mais simples e baratinho, não dá. Os dois reais que cobramos pelo zine rendem o suficiente pra gente colocar o próximo pra rodar.

Viu? Não tem mistério. Achamos importante escrever e desenhar arte, subversão, sustentabilidade. Nos unimos, viramos noites escrevendo, pintando, fazendo revisão. Grampeamos muito zine, quase botamos o designer doido, carregamos muito papel (reciclado!) debaixo do sol. Perdemos textos valiosos por cataclismas tecnológicos. Escrevemos em tudo, no meio de shows, em guardanapo, o texto capixaba inclusive foi escrito no celular. Abrimos mão de algumas coisas, ganhamos muitas outras. Essa catarse confusa, trabalhosa e maravilhosa que é juntar gente com o propósito de falar livremente.

A gente segue o ensinamento político do Chico Mendes: fazer o máximo usando o mínimo.
Se mais gente lembrasse como é simples fazer as coisas, sem ter que sempre recorrer a um barracão para contrair dívidas simbólicas, a gente não estaria nessa estagnação política doida no Acre.

Até lá nós vamos andando. Já diria o outro Chico, dessa vez o Science: um passo à frente e você não está mais no mesmo lugar!

No início os calos doem

No inicio os calos doem. Mas, com o passar do tempo eles começam a fazer parte de nós. E vamos aos poucos acostumando com dor. Até que chega um ponto em que nem percebemos sua presença. Ele finalmente parece não incomodar. No inicio realmente me doiam aquelas discursões. Elas só me deixavam mal. Eu me sentia culpada por ser assim. Eu não escolhi. Eu sou. Todavia, minha mãe parecia negar isso. Ela não conseguia se desligar de todos os dogmas acumulados em sua trajetória. Cada vez que ela pronunciava que tinha vergonha de mim, aquilo ia me cortando. Quantas noites passei em claro, chorando e querendo acreditar que aquela tortura ia passar. Ela conseguia me humilhar todos os dias. Mas, com passar dos anos eu me acostumei, e até achava natural me sentir assim. Hoje eu sei que o que eu sofria era violência verbal. A violência verbal a antessala da violência física. E a linha que as separe é tênue.

Eu me lembro como se fosse hoje. Mas já se passaram 4 anos que eu assumi minha homossexualidade para a minha família. Foi no dia 11 de Dezembro de 2009. Naquela noite eu verbalizei o que por anos eu suprimi. Parecia apenas mais uma das discursões que eu tinha com a minha mãe. Porém, essa não foi. No meio da gritaria minha mãe perguntou: “você é “sapatão”?”. Nesse momento me veio um flash back de todos os anos que vivi uma vida dupla. Tentado ter sentimentos que não condiziam com a minha vontade. Então respirei fundo e falei: Eu sou. Naquele momento eu vi minha mãe transtornada, como jamais vi. Ela perguntou novamente e dessa vez eu gritei EU GOSTO DE MULHERES. Ela veio em minha direção e começou a me dar tapas, a jogar minha cabeça contra a parede ate que por fim, jogou um espelho em mim. Dessa noite, me restaram alguns hematomas. Os físicos nem foram tão dolorosos. O que mais me doeu foi às feridas abertas em mim e consequentemente na minha família.

As feridas se cicatrizam com o tempo. O processo de cicatrização pode ser demorado, mas um dia ele é concluído. As cicatrizes ficam. Mas, elas não doem. Perdoar é importante. Ajuda a seguir em frente. A vida é tão curta pra ver. E no fim, eu acredito que as pessoas sempre podem melhorar.

Mãe, eu te amo!

F.M

F.M. é mulher. É anônimo, podia ser qualquer um. Qualquer uma. A sigla é inventada pra falar de dor real.

identidade azul

minha identidade é azul. os meus olhos não.
sou preto mas o ibge disse que sou pardo e, lascou porque nem sei o que isso significa.

sou pobre mas a minha cabeça vale um milhão.
o poema mais bonito que li, falava de café, trem e pão.

três coisas que faltam e por assim, irritam e entristecem o trabalhador,
arroz, tomate e bom busão.

sou da galera do cinema,
sou um personagem.
não existo, na verdade.

 

Teddy Falcão

Tem montado cineclubes, mostras, semeado arte e coletividade pela cidade toda. É programador, cineasta e ainda pensa em pilotar avião.