Voltar para Brasília é um murro no estômago

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foto: Joyce Matias

Acho que todo acreano tem isso, se mora fora do Acre. Melhor, fora do Norte. Ainda mais nestas metrópoles de solidão afetada como Brasília. A gente volta e enjilha, sente falta do calor, das pessoas “de verdade”. Feito uva passa. Saudade do nosso barulho constante, do fuá, do trânsito imprevisível, das carapanãs. De bater perna no centro, de passar mal de calor.

Tem um pouco de bairrismo mas o grosso é pertencimento mesmo. A florestania, como mote ideológico, só emplacou porquê a identidade tácita, do não dito, do viver na floresta e da marca disso em nossos corpos, mentes, corações. As singularidades do nosso sotaque, dos nossos arranjos de palavras, do jeito que é tão nosso de criar laços e de nos cercar de gente. Até as brigas tem uma pimenta de cheiro diferente. Eu tô achando esse texto muito é brega. Vou pra minha casa.

Mentira, vou não. Qualquer barulho de gente é melhor do que barulho nenhum. Correndo os olhos na rua reta e sem esquinas (como que alguém consegue uma proeza dessas? Fazer uma cidade inteira sem nem mesmo uma quina?) vejo o sonho dos outros, uma loja de discos fechada, umas janelas pontilhadas de luz. Me sussurra um Belchior: a solidão das pessoas nessas capitais.

Essas epifanias doidas que a internet nos provoca quebram o sentimento de exílio um pouco. Longe, agoniada, com um aperto no peito é impossível não ficar. Mas tem a ventura de poder semear o vento a distância. Escrever para um zine da gente, feito na tora e comungado a cinco pares de mãos, triangulando Acre, Brasília, Pelotas. Acompanhar o movimento que começa a reocupar a cidade com arte, mobilizar de longe, com mais do que esperanças e figas de boa sorte. Outra coisa boa: nem precisa mais de líder dos povos, é da sintonia possível em amontoados de gente que vão nascendo os caminhos. É de um monte de pouquinhos que se forma a imensidão. Essa avenida de possibilidades combate o desassossego que é sair da terra que a gente ama. Provoca outro, o desassossego criativo de continuar fechada com os seus, inventando caminhos para o sonho mesmo no outro extremo do Brasil.

Casar arte com política não é conveniência, é libertação. Não tem desprendimento maior do que transformar sonho em coisa, mistificação em estratégia, vontade em lembrança. É o que aprendi durante todo o tempo de militante nas boas causas, de articuladora política. É o que eu desejo que o povo de Rio Branco redescubra também. Estamos vivendo um momento lindo, arte e idéias nascendo nos cantinhos da cidade, a cidade voltando a pronunciar o que pensa, o que sente falta. Se apoderem disso, gente. Descubram a liberdade que é dar a sua cara pra mudança que você quer pro mundo. É do caralho, juro pra vocês.

Vou pagar o café e andar em ziguezague nessa cidade de paralelas. O cerrado debaixo dos pés e os ipês do Acre de Agosto na cabeça. Também o versinho do poeta, esperando ainda / que a festa do adeus / seja a festa da vinda.

Iara Vicente

Acreana do pé rachado, vem de tempos em tempos beber do rio Acre pra renovar os sonhos e as utopias

Teresa Urban, presente!

foto: Iara Vicente

Teresa Urban foi uma grande jornalista curitibana pioneira na cobertura sobre meio ambiente e uma das primeiras mulheres a chefiar uma redação no estado do Paraná. Por onde passou inspirou militantes e ativistas com sua história de luta. Mesmo quando grávida, viajou para o interior do Paraná numa tentativa corajosa de introduzir os bóias-frias na esquerda e caiu nas mãos da repressão, onde sofreu torturas inimagináveis, tanto físicas como psicológicas, com o filho ainda recém-nascido. Defendia que qualquer revolução tinha de ser feita com a vanguarda dos trabalhadores organizados. Militou em movimentos contra a ditadura e foi exilada. Publicou mais de 20 livros relacionados à conservação da natureza, a luta trabalhadora, a repressão da ditadura e seu último, lançado dois meses atrás foi o primeiro de ficção, um desejo que foi realizado.

Frequentemente nos presenteava com esclarecedoras análises da conjuntura política nacional recheadas de denúncias. Na área ambiental, sua atuação deixou um legado imensurável para a sociedade paranaense e brasileira, mapeou os remanescentes da floresta de araucárias e desenvolveu diversos projetos ambientais na área de conservação da natureza com ongs e entidades. Sua militância e ativismo socioambiental foram marcados por vitórias e também amargas derrotas, como exemplo podemos citar a não instalação de uma termoelétrica no litoral paranaense e o fechamento da Estrada do Colono no Parque Nacional do Iguaçu. Com muita energia orientou e alertou a população quanto aos retrocessos socioambientais do atual governo e foi liderança na campanha Veta Dilma contra a Reforma do Código Florestal, mudança que questionou até seu último momento.

Seus posicionamentos eram claros quanto à importância dos serviços e leis ambientais, defendia que a responsabilidade socioambiental deveria ser vista como um compromisso entre gerações e mais que isso, como um pacto civilizatório. Costumava questionar “a natureza nos protege, mas quem protege a natureza?” e assim viveu para protegê-la.

Grande guerreira, mãe, avó e mulher livre, seus ensinamentos estão e estarão presentes nos gritos de cada jovem que hoje se levanta por ideais coletivos e um país mais justo. Teresa era como uma araucária, árvore símbolo do Paraná, que não deixa apenas uma semente, mas sim uma pinha cheia delas. Nós hoje somos seus pinhões e vamos continuar com sua luta por liberdade, por uma vida mais digna, contra agressões ao meio ambiente ou aos direitos humanos. Em cada marcha e em cada manifestação pela vida ela estará presente, pois Teresa Urban vive em nós!

Teresa Urban, presente!

texto lido por Letícia Camargo na Marcha das Vadias de Curitiba, em 2013.

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A Letícia faz parte do coletivo que organiza a marcha das vadias no Paraná. Pra quem não sabe, a marcha das vadias é um protesto anual pela liberdade das mulheres. O nome é uma resposta à provocação ouvida por uma vítima de estupro no Canadá. Ao tentar prestar queixa na delegacia, ela ouviu do policial que a culpa era dela, por estar “vestida como uma vadia”. Então ano a ano, mulheres do mundo todo marcham para dizer: se ser livre é ser vadia, então somos todas vadias. E, ao mesmo tempo, ninguém é.

Teresa Urban faleceu um mês antes da Marcha das Vadias de Curitiba. Foi um baque muito grande para os movimentos sociais, já que ela era uma grande referência. Letícia propôs fazer na marcha um momento para celebrar Teresa, sua vida, suas lutas. Uma faixa enorme com o rosto dela foi pendurada no carro de som, fazendo de Teresa, mesmo ausente, mais uma mulher na linha de frente do protesto. Letícia escreveu este texto que publicamos aqui em homenagem a ela e foi combinado com o coletivo a leitura dele durante a marcha.
No dia da marcha, Letícia leu o texto. Estavam elas quase no Boca Maldita onde termina a marcha. Letícia diz que o Boca Maldita é “um reduto machista de Curitiba”. Tem este apelido por ser onde homens se juntam para falar de política e de futebol desde a década de 60. Fica no final da rua XV de Novembro, bem no centro da cidade.
Ela subiu no carro de som e anunciou que leria um texto sobre Teresa, grande paranaense, que havia falecido. Disse que ela deixou milhares de órfãos e ófãs em Curitiba e em todo o Brasil, que o legado de Teresa é e seguirá sendo aprendizado para muitas mulheres livres do Brasil.
Letícia leu o texto e todos levantaram cartazes, muitos escritos: Tereza Urban vive! A multidão repetia o seu nome em coro várias vezes, era de arrepiar de tão lindo. Ali, naquele mesmo lugar da rua XV onde Teresa participou ela mesma de inúmeras manifestações. Incluindo uma na década de 80 onde ela e vários ativistas socioambientais da velha guarda paranaense colocaram milhares de quilos de carvão em protesto contra a implantação de uma termoelétrica. Era pra ter carvão queimando no litoral do Paraná, mas graças à luta de Teresa e de tantos outros a termoelétrica nunca foi construídas. Letícia me contou isso pelo facebook, e se emocionou. Eu, do outro lado do país, me emocionei também.

“Aos nossos mortos, nenhum minuto de silêncio, mas uma vida inteira de lutas!”

Iara Vicente

Acreana do pé rachado, vem de tempos em tempos beber do rio Acre pra renovar os sonhos e as utopias

Letícia Camargo 

Feminista, socioambientalista, sustentabilista. Aprendeu a indignação com uma geração de mulheres fortes. É uma araucária em formação, espalhando pinha das boas idéias por aí.

Do quase nada

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foto: Iara Vicente

Do símbolo intenso da escuridão,
do desprezo, e ao mesmo tempo da resistência e da beleza,
faz-se a leitura quase subliminar do sensível desejo de paz.

Num corpo crú, sem marcas corais,
Vê-se a imagem de um ato supra de sensibilidade e fraternidade.

Num corpo crú, sem marcas forjadas,
Lê-se o símbolo indelével do movimento de todas as formas de amar.

Num corpo crú, sem marcas tangíveis,
Imagina-se o inimaginável tocar o infinito fluir quase astrológico do sentir-se vivo.

Num corpo crú, sem marcas astrais,
Flutua-se no desejo antropológico de ser o seu próprio Ser.

Num corpo crú, nú, só,
Constrói-se a poesia do ser puro, simples e solitário.

Do corpo crú, nú, só,
tira-se a verdade, a inocência e a liberdade de estar, apenas estar.

Dum corpo, dum copo, duma caneca, eu tiro a poesia.
Duma caixa, duma árvore, duma porta, eu tiro a poesia.
Duma vida, duma morte, duma sorte, eu vivo a poesia.

Teddy Falcão

Tem montado cineclubes, mostras, semeado arte e coletividade pela cidade toda. É cineclubista e ainda pensa em pilotar avião.

Não é assim que tem que ser

foto: Iara Vicente

O gigante acordou! Todos disseram. Mas será que ele acordou mesmo? Existe um ditado popular que diz: “Religião, futebol e política não se discutem”. Mas, será? Imagino que a política só vai melhorar quando quebrarmos esses paradigmas. É discutindo que vamos encontrar um caminho. Enquanto ficamos calados os movimentos estão sendo sufocados por práticas mesquinhas.
E aí você tem um diretório do central dos estudantes (DCE) dominado por certos grupos políticos que fazem do mesmo um trampolim para a carreira política. O DCE não é e nem tem que servir de trampolim. Mas, essa conduta vem de baixo. Começa nos grêmios estudantis, onde os partidos que tem interesse em aparelhar o movimento se infiltram e monopolizam tudo. E começa todo o jogo da política suja. Colocam seus “seguidores” para se familiarizarem politicamente com a jogatina. Com isso eu tenho um ciclo que detêm o poder, a força estudantil é sufocada e qualquer melhoria que não seja do interesse deles também . Se eu matei a fala dos estudantes no ensino médio ele começa a internalizar o silêncio. Quando o mesmo chega na universidade ele encontra um núcleo dominante que lhe faz manter a mesma linha de pensamento. Logo, eu não vou ter nenhum tipo de movimento opositor. Com isso tudo, fica bem e lindo para quem domina.
A universidade, que era pra ser um lugar de debate de ideias e uma tentativa de fazer uma nova política, se rende ao silêncio. Esse ciclo tem que mudar. Temos que dar voz ao movimento. Não ser só um eco do que os grandes querem ouvir. Vamos vandalizar isso. Agitar as universidades. Com ideias construtivas. Enquanto isso não acontecer nada vai mudar. E vamos continuar nessa calmaria. Que venha um furacão!
Somos os filhos da Revolução… Nós somos o futuro da Nação!

Kairlly Mourão
Vai ser médica em algum momento da vida, de gente ou de bichos. É acreana do pé rachado e não vê sentido num desenvolvimento para o Acre que não tenha como protagonista a nossa mata e a nossa gente.

Rabissaca // Como é bom pagar as próprias contas

Nem parece que faz mais de um mês que o Empate começou a circular como Zine impresso por Rio Branco. Pouco tempo que parece uma eternidade. Deu tempo de tudo. De ter gente parando no meio da rua perguntando se pode escrever pro zine, gente elogiando a iniciativa, teve gente criticando e até gente dizendo que o zine era comprado.

Na verdade, teve um monte de gente dizendo que o zine é comprado, só ainda não decidiram quem paga as contas. Alguns ficaram entre dizer que o zine era da oposição, outros da Marina Silva e já teve até gente espalhando por aí que o zine foi comprado pela Frente Popular do Acre. Mas na verdade ninguém veio perguntar para gente quem paga as contas. A resposta? Nós mesmos.

Nós achamos bem difícil a FPA ou a oposição pagar qualquer um que fale tanto sobre sustentabilidade e meio ambiente, porque nenhum deles estão realmente preocupados com isso. Quanto a Marina Silva? Bom, tem três ‘enredada’ na equipe, mas elas são voluntárias. Ate a última vez que checamos, voluntariado é exatamente quando a pessoa não recebe para trabalhar.

E mesmo que qualquer um deles quisessem pagar, a gente não ia aceitar por um simples motivo: não estamos a venda.

Mas falaram tanto que a gente tava querendo só promover a Marina Silva que a gente pensou… Mas não é que ela combina com o nosso projeto? A gente pode não receber dinheiro mas adora receber conselho. Então chamamos uma das pessoas que participou dos Empates, lá dos seringais, para falar sobre os empates que agora são virtuais. E ela topou!

E quanto quem vai pagar nossas contas? Bom, cada um já arrumou seu emprego ou sua pensão alimentícia para se virar. E as contas do zine é você, leitor, que paga. Toda vez que você faz uma doação ou compra um zine, você está ajudando a pagar as contas de impressão e divulgação.

Acho que tem tanto tempo que não tinha uma iniciativa independente na cidade que o pessoal esqueceu o que isso significa. É assim ó gente: somos cinco amigos com vontade de colocar as nossas idéias pra jogo. Fizemos vaquinha na internet, recebemos umas doações. Gastamos o nosso dinheiro, também. O design foi pensado pra ajudar nesse nosso jeito vira-lata de fazer imprensa, inclusive: o projeto é desde o início pensado para ser feito em folha A4, xerocado (e ficou lindo! Não ficou?). Mais simples e baratinho, não dá. Os dois reais que cobramos pelo zine rendem o suficiente pra gente colocar o próximo pra rodar.

Viu? Não tem mistério. Achamos importante escrever e desenhar arte, subversão, sustentabilidade. Nos unimos, viramos noites escrevendo, pintando, fazendo revisão. Grampeamos muito zine, quase botamos o designer doido, carregamos muito papel (reciclado!) debaixo do sol. Perdemos textos valiosos por cataclismas tecnológicos. Escrevemos em tudo, no meio de shows, em guardanapo, o texto capixaba inclusive foi escrito no celular. Abrimos mão de algumas coisas, ganhamos muitas outras. Essa catarse confusa, trabalhosa e maravilhosa que é juntar gente com o propósito de falar livremente.

A gente segue o ensinamento político do Chico Mendes: fazer o máximo usando o mínimo.
Se mais gente lembrasse como é simples fazer as coisas, sem ter que sempre recorrer a um barracão para contrair dívidas simbólicas, a gente não estaria nessa estagnação política doida no Acre.

Até lá nós vamos andando. Já diria o outro Chico, dessa vez o Science: um passo à frente e você não está mais no mesmo lugar!

No início os calos doem

No inicio os calos doem. Mas, com o passar do tempo eles começam a fazer parte de nós. E vamos aos poucos acostumando com dor. Até que chega um ponto em que nem percebemos sua presença. Ele finalmente parece não incomodar. No inicio realmente me doiam aquelas discursões. Elas só me deixavam mal. Eu me sentia culpada por ser assim. Eu não escolhi. Eu sou. Todavia, minha mãe parecia negar isso. Ela não conseguia se desligar de todos os dogmas acumulados em sua trajetória. Cada vez que ela pronunciava que tinha vergonha de mim, aquilo ia me cortando. Quantas noites passei em claro, chorando e querendo acreditar que aquela tortura ia passar. Ela conseguia me humilhar todos os dias. Mas, com passar dos anos eu me acostumei, e até achava natural me sentir assim. Hoje eu sei que o que eu sofria era violência verbal. A violência verbal a antessala da violência física. E a linha que as separe é tênue.

Eu me lembro como se fosse hoje. Mas já se passaram 4 anos que eu assumi minha homossexualidade para a minha família. Foi no dia 11 de Dezembro de 2009. Naquela noite eu verbalizei o que por anos eu suprimi. Parecia apenas mais uma das discursões que eu tinha com a minha mãe. Porém, essa não foi. No meio da gritaria minha mãe perguntou: “você é “sapatão”?”. Nesse momento me veio um flash back de todos os anos que vivi uma vida dupla. Tentado ter sentimentos que não condiziam com a minha vontade. Então respirei fundo e falei: Eu sou. Naquele momento eu vi minha mãe transtornada, como jamais vi. Ela perguntou novamente e dessa vez eu gritei EU GOSTO DE MULHERES. Ela veio em minha direção e começou a me dar tapas, a jogar minha cabeça contra a parede ate que por fim, jogou um espelho em mim. Dessa noite, me restaram alguns hematomas. Os físicos nem foram tão dolorosos. O que mais me doeu foi às feridas abertas em mim e consequentemente na minha família.

As feridas se cicatrizam com o tempo. O processo de cicatrização pode ser demorado, mas um dia ele é concluído. As cicatrizes ficam. Mas, elas não doem. Perdoar é importante. Ajuda a seguir em frente. A vida é tão curta pra ver. E no fim, eu acredito que as pessoas sempre podem melhorar.

Mãe, eu te amo!

F.M

F.M. é mulher. É anônimo, podia ser qualquer um. Qualquer uma. A sigla é inventada pra falar de dor real.

Está aberta a tribuna

Por Iara Vicente
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                No acender das luzes eu gostaria de registrar que esse é um jornal que nasceu, concepção e correria, em uma semana. Desde que voltei pro Acre tive várias vezes as mesmas conversas, com pessoas diferentes: no Acre não tem imprensa. Quase não se fala, e quando se diz alguma coisa, é bem baixinho. O mundo não cabe só nas versões oficiais. Falta espaço pra conversar. Pra produzir dissonâncias. Como ia ser bom quebrar a monotonia. E esse zine-manifesto-jornal é fruto dessas provocações, somos um bocadinho de gente movida pela convicção de que só existe o que se faz.  Pra mudança que queremos ter a nossa cara, não tem caminho do meio: é preciso dar um jeito, meter a cara e trazer as idéias pra realidade.

O empate se desencadeia num bocado de datas simbólicas. São 25 anos da morte de Chico Mendes e 111 anos de Revolução Acreana. Inclusive, foi no dia 6 de Agosto de 2013, no Café do Theatro, ouvindo gerações da música autoral acreana que o Empate tomou rumo.

Resolvemos que o território livre tinha que servir pra gente imaginar esse outro mundo possível que queremos. Pra falar sobre  democratizar a democracia. De sustentabilidade, poesia e subversão. O Brasil esteve em polvorosa, a rua se democratizou desde o junho de 2013, que foi de sangue e contestação. No Acre, 15 mil saíram às ruas e é tudo diferente, por trás do povo na rua não tem partido, sindicato, DCE. É gente comum ocupando o asfalto e querendo ser protagonista da política de seu país. Essa mudança toda abre uma avenida para que a gente mantenha a luta pela transformação da realidade, agora a partir das nossas próprias palavras e idéias.  Construir um projeto que dialogue com a nossa gente do chão, com a indignação que nasce no ônibus apertado, que se ajeita na beira do barranco, que rebola pro salário dar no fim do mês.

Nosso projeto é coletivo, colaborativo e por causa disso mesmo é que a gente não pode deixar de agradecer quem acreditou no projeto desde que ele era ainda só o sonho e abriu as portas pra nós: Jorge Henrique e Janaína, do café do Theatro. Têm parte no crime também duas gerações da cena autoral acreana, Clenilson Batista e Diogo Soares. O Clenilson que se empolgou desde o primeiro convite, e o Diogo que participou desde o início, seja nas idéias, seja fazendo o som e os furdúncios que tanto colaboraram para o nosso processo criativo. Agradecemos à Adriana Ramos, que fez a primeira doação para a vaquinha. Por fim, agradecemos a todo mundo que se empolgou junto conosco com a idéia.

É o empate que retorna, desta vez como tecnologia social, como forma de gente simples afugentar motosserra, fazendeiro e jagunço. A resistência, a teimosia revolucionária que surge da insubordinação das pessoas é a marca das nossas insurreições populares à brasileira. E como insurreição, surge em muitas flores, floriu em Chico Mendes, em Maria do Espírito Santo, em Zé Castanha, em Amarildo, que já foram arrancados deste chão. Floriu na rabeca de Hélio Melo, floriu no menino do colégio acreano que foi se manifestar, floriu na menina que não vai mais abaixar a voz na hora de falar o que pensa. Floriu, resplandeceu, alumiô. Como uma poronga no caminho escuro do corte da seringa. Como a catarse, como um manifesto, como liberdade. Não era pra ser este o sentido da política?

Já diz uma placa na entrada do senadinho: quando o povo fala, ou é, ou foi, ou será. Agora falaremos. Durma-se com uma zuada dessa, salve a nossa voz!

Está aberta a tribuna. Neste café que mantém viva a cultura da cidade sob o chão que um dia segurou seu Hélio Melo e suas telas. E que seja fértil como terra preta.


*Texto publicado originalmente na primeira edição do Zine Empate. Iara Vicente brinca de fazer revolução desde criança. Acreana do pé rachado, mora na capital do Brasil, uma cidade sem esquinas. E vem de tempos em tempos beber do rio Acre pra renovar os sonhos e as utopias.

O Manifesto

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foto: Iara Vicente

O empate que está pra desencadear quer ser um jornal-manifesto acreano, um território livre onde a gente possa criar, retomar e discutir aquilo que nos faz sonhar, ou que nos faz tremer de indignação. O constante será virtual, mas sempre que tiver uma folguinha a gente quer fazer o embate virar zine artesanal e ir passear pela cidade.

Pra se libertar do jugo dos fazendeiros que queriam vender a floresta com gente e tudo, seringueiros e seringueiras inventaram o empate. De uma teimosia revolucionária, o empate foi o ato de se quem sobrevivia da mata barrar a ganância de quem ordenava as motosserras. Nos seringais, centenas de pessoas ficavam imóveis no espaço que havia entre a floresta e os jagunços, até que os fazendeiros resolvessem recuar. É do inconformismo que nasce de dentro da floresta lá na década de 70 que remonta as nossa raiz ideológica abraçada, assumida, somos gente da floresta que se encontra na cidade e no furdúncio virtual.

A diferença é que enquanto os seringueiros tinham que caminhar dias para conversar, a internet encurtou as distâncias e abriu os caminhos para as idéias correrem e para rede de solidariedade se formarem. Nossa geração usa disso para subverter e desorganizar o estado das coisas, como se viu neste histórico junho de 2013. Como a palavra africana que o software livre tornou universal, ubuntu, diz: este grito é porquê somos todos.

No Acre as dissonâncias são muitas, e poucas são pronunciadas. Pronunciemo-las, pois. O empate é simbólico pelo direito ao grito, ao sussurro, ao barulho, à catarse. As vozes dissonantes e discordantes. E durma-se com uma zuada dessas! O empate é a favor das criticas, sendo elas pra direita, esquerda, os da frente ou de costas. É pelo direito a falar sem ter que ouvir piadinhas, olhares tortos ou censura velada.

O manifesto é local porquê a mudança começa em casa. Mas o sonho é que a mudança atravesse a esquina e corra o Brasil, a América Latina, o mundo. Do seringal para o mundo. Ajude-de nos a escrever esse trecho da nossa história! Avante!