Acho que todo acreano tem isso, se mora fora do Acre. Melhor, fora do Norte. Ainda mais nestas metrópoles de solidão afetada como Brasília. A gente volta e enjilha, sente falta do calor, das pessoas “de verdade”. Feito uva passa. Saudade do nosso barulho constante, do fuá, do trânsito imprevisível, das carapanãs. De bater perna no centro, de passar mal de calor.
Tem um pouco de bairrismo mas o grosso é pertencimento mesmo. A florestania, como mote ideológico, só emplacou porquê a identidade tácita, do não dito, do viver na floresta e da marca disso em nossos corpos, mentes, corações. As singularidades do nosso sotaque, dos nossos arranjos de palavras, do jeito que é tão nosso de criar laços e de nos cercar de gente. Até as brigas tem uma pimenta de cheiro diferente. Eu tô achando esse texto muito é brega. Vou pra minha casa.
Mentira, vou não. Qualquer barulho de gente é melhor do que barulho nenhum. Correndo os olhos na rua reta e sem esquinas (como que alguém consegue uma proeza dessas? Fazer uma cidade inteira sem nem mesmo uma quina?) vejo o sonho dos outros, uma loja de discos fechada, umas janelas pontilhadas de luz. Me sussurra um Belchior: a solidão das pessoas nessas capitais.
Essas epifanias doidas que a internet nos provoca quebram o sentimento de exílio um pouco. Longe, agoniada, com um aperto no peito é impossível não ficar. Mas tem a ventura de poder semear o vento a distância. Escrever para um zine da gente, feito na tora e comungado a cinco pares de mãos, triangulando Acre, Brasília, Pelotas. Acompanhar o movimento que começa a reocupar a cidade com arte, mobilizar de longe, com mais do que esperanças e figas de boa sorte. Outra coisa boa: nem precisa mais de líder dos povos, é da sintonia possível em amontoados de gente que vão nascendo os caminhos. É de um monte de pouquinhos que se forma a imensidão. Essa avenida de possibilidades combate o desassossego que é sair da terra que a gente ama. Provoca outro, o desassossego criativo de continuar fechada com os seus, inventando caminhos para o sonho mesmo no outro extremo do Brasil.
Casar arte com política não é conveniência, é libertação. Não tem desprendimento maior do que transformar sonho em coisa, mistificação em estratégia, vontade em lembrança. É o que aprendi durante todo o tempo de militante nas boas causas, de articuladora política. É o que eu desejo que o povo de Rio Branco redescubra também. Estamos vivendo um momento lindo, arte e idéias nascendo nos cantinhos da cidade, a cidade voltando a pronunciar o que pensa, o que sente falta. Se apoderem disso, gente. Descubram a liberdade que é dar a sua cara pra mudança que você quer pro mundo. É do caralho, juro pra vocês.
Vou pagar o café e andar em ziguezague nessa cidade de paralelas. O cerrado debaixo dos pés e os ipês do Acre de Agosto na cabeça. Também o versinho do poeta, esperando ainda / que a festa do adeus / seja a festa da vinda.
Iara Vicente
Acreana do pé rachado, vem de tempos em tempos beber do rio Acre pra renovar os sonhos e as utopias






